Como funciona a canonização de um Santo
Sumário
Como funciona a canonização de um Santo (Guia Completo 2025)
Você já ouviu falar da canonização de Santa Dulce dos Pobres ou da beatificação do jovem Carlo Acutis e se perguntou como isso realmente acontece? Muitos fiéis veem as notícias, celebram os novos santos, mas sentem uma ponta de dúvida sobre os bastidores.
Parece um processo misterioso, talvez até mesmo burocrático. A verdade é que a Igreja, com a sabedoria de dois milênios, desenvolveu um caminho extremamente rigoroso e detalhado para reconhecer a santidade.
Se você é catequista ou simplesmente um católico que deseja entender sua fé mais a fundo, está no lugar certo. Este guia completo vai desmistificar como funciona o processo de canonização de um santo, explicando cada etapa de forma clara e acessível.
Ao final, você terá total segurança para explicar esse belo processo e se inspirar ainda mais com o testemunho daqueles que a Igreja nos apresenta como modelos de vida.
O que é a Canonização e por que a Igreja declara Santos?
Antes de entrarmos nas etapas, é fundamental entender o “porquê”. A canonização não “cria” um santo. Deus é quem santifica. A canonização é o ato formal e infalível do Papa que declara que uma pessoa, após sua morte, viveu uma vida de virtudes heroicas ou sofreu o martírio, e que agora se encontra no Céu, intercedendo por nós.
A Igreja faz isso por três motivos principais:
- Para a Glória de Deus: A vida dos santos é a prova viva de que a graça de Deus pode transformar uma vida humana.
- Para nossa Inspiração: Os santos são modelos concretos. Eles nos mostram que é possível viver o Evangelho em diferentes épocas, culturas e estados de vida (leigos, sacerdotes, religiosos, jovens, idosos).
- Para nossa Intercessão: A Igreja acredita na Comunhão dos Santos. Aqueles que estão no Céu podem interceder por nós que ainda estamos na terra. A canonização nos dá a certeza de que podemos pedir a intercessão daquele santo em particular.
Quem pode se tornar um Santo? Os requisitos iniciais
Qualquer fiel católico pode, em teoria, ter sua causa de canonização iniciada. No entanto, o processo só começa se dois requisitos fundamentais forem observados após a sua morte.
A fama de Santidade
A pessoa precisa ter uma “fama de santidade” (fama sanctitatis) ou uma “fama de martírio” (fama martyrii). Isso significa que, de forma espontânea e contínua, as pessoas que a conheceram em vida ou que ouviram sua história a consideram uma pessoa santa e começam a pedir sua intercessão, relatando graças alcançadas.
A ausência de impedimentos
Não pode haver nenhum obstáculo doutrinário ou moral que impeça a causa. Isso significa que os escritos da pessoa (se houver) e seu comportamento em vida devem estar em plena conformidade com a fé e a moral da Igreja.
O caminho para a Santidade: As 4 etapas detalhadas do processo de canonização
O processo é dividido em quatro fases bem definidas. Cada uma representa um degrau a mais no reconhecimento da santidade da pessoa.

Etapa 1: Servo de Deus – O início da jornada
Tudo começa na diocese onde a pessoa faleceu. O processo não pode ser iniciado antes de cinco anos após a morte do candidato (embora o Papa possa dispensar este tempo, como fez com São João Paulo II e Madre Teresa de Calcutá).
- Pedido Formal: Um grupo de fiéis, uma paróquia ou a própria diocese nomeia um postulador, que é a pessoa responsável por promover a causa. Ele apresenta um pedido formal ao bispo local para iniciar o processo.
- Investigação Diocesana: O bispo, após obter o “nada obsta” (nihil obstat) do Vaticano, inicia uma investigação aprofundada. Ele reúne todos os documentos, escritos e testemunhos sobre a vida da pessoa.
- Declaração: Se a investigação inicial for positiva, o bispo declara o início oficial da causa, e a partir deste momento, o candidato recebe o título de Servo de Deus.
Etapa 2: Venerável – O reconhecimento das Virtudes Heroicas
Concluída a fase diocesana, toda a documentação (milhares de páginas!) é enviada para Roma, para o Dicastério para as Causas dos Santos.
- Análise em Roma: Uma equipe de teólogos e historiadores analisa todo o material para verificar se o Servo de Deus viveu as virtudes cristãs (fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza e temperança) em um grau heroico.
- O Decreto Papal: Se o parecer dos teólogos e, posteriormente, dos cardeais e bispos do Dicastério for favorável, eles apresentam um relatório ao Papa. Se o Santo Padre aprovar, ele autoriza a publicação de um decreto que reconhece as virtudes heroicas.
- Novo Título: Neste momento, o Servo de Deus passa a ser chamado de Venerável. Este título significa que a Igreja o reconhece como um modelo de vida cristã, mas ainda não autoriza o culto público (missas em sua honra, por exemplo). O Venerável Fulton Sheen é um exemplo conhecido.
Etapa 3: Beato – A comprovação do primeiro Milagre
Para que um Venerável seja declarado Beato, a Igreja exige um sinal de Deus: um milagre ocorrido por sua intercessão após a sua morte.
- A Exceção do Martírio: Se o candidato foi um mártir (alguém que morreu por ódio à fé), o milagre é dispensado para a beatificação. O martírio em si é considerado o supremo testemunho de fé.
- A Investigação do Milagre: Geralmente, os milagres analisados são curas inexplicáveis. O processo é extremamente rigoroso e envolve médicos, cientistas e teólogos. A cura precisa ser instantânea, completa, duradoura e cientificamente inexplicável.
- Beatificação: Uma vez que um milagre é aprovado pelo Papa, ele marca a cerimônia de Beatificação. A partir deste momento, o Venerável se torna Beato (ou Bem-Aventurado). O Beato Carlo Acutis, por exemplo, teve um milagre de cura reconhecido.
A beatificação permite o culto público ao novo Beato, mas de forma restrita, geralmente na sua diocese de origem ou na sua congregação religiosa.
Etapa 4: Santo – A confirmação final e o culto universal
A última etapa do caminho é a canonização. Para isso, é necessário um segundo milagre.
- O Novo Milagre: Este segundo milagre deve ter ocorrido após a cerimônia de beatificação. A investigação segue o mesmo rigor científico e teológico do primeiro.
- Aprovação Final: Com a comprovação do segundo milagre, o Papa convoca um consistório (reunião com os cardeais) e anuncia a data da Canonização.
- Declaração de Santidade: Na cerimônia de canonização, o Papa, usando a fórmula solene, declara aquela pessoa como Santa. Esta é uma declaração infalível da Igreja. O nome do novo santo é inscrito no cânon (a lista oficial dos santos) e o seu culto é estendido à Igreja universal. Santa Dulce dos Pobres passou por todo este caminho até ser canonizada em 2019.
O “Tribunal dos Santos”: quem conduz o processo?
Dois atores principais são responsáveis por garantir o rigor e a seriedade de cada causa.
O papel do Bispo Diocesano
O bispo da diocese onde o candidato faleceu é o primeiro juiz da causa. É ele quem tem a responsabilidade de iniciar a investigação, ouvir as testemunhas e garantir que todo o material seja coletado com lisura e precisão, como fez Dom Luciano Mendes de Almeida no processo de Nhá Chica em Baependi (MG).
O Dicastério para as Causas dos Santos
Este é o “ministério” do Vaticano responsável por supervisionar todos os processos de canonização. Fundado em 1588 e reformado por vários Papas, ele funciona como uma espécie de tribunal superior. Seus peritos (historiadores, teólogos, médicos) analisam cada detalhe da documentação enviada pelas dioceses. Para mais informações, você pode visitar a seção correspondente no site oficial do Vaticano.
A peça-chave: Como a Igreja investiga e aprova um milagre?
A análise de um suposto milagre é uma das partes mais fascinantes e rigorosas do processo, mostrando a aliança entre fé e razão.
O que é considerado um milagre para a canonização?
Um milagre é um evento que vai além das forças da natureza, atribuído à intercessão direta de Deus. No contexto das canonizações, a Igreja geralmente se concentra em curas físicas, pois elas podem ser verificadas objetivamente pela ciência.
A rigorosa investigação médica e teológica
- Fase Médica: Uma junta médica, composta por especialistas na área da doença em questão (muitos deles não católicos), analisa o caso. Eles devem responder a uma série de perguntas, como: O diagnóstico da doença era correto? A doença era incurável? O tratamento aplicado era adequado para causar a cura? A cura foi súbita, completa e duradoura? A ciência pode explicar o que aconteceu? Apenas se a resposta para a última pergunta for um claro “não”, o caso avança.
- Fase Teológica: Em seguida, teólogos analisam a conexão entre a cura e a intercessão do Venerável ou Beato. Eles precisam confirmar que as preces foram dirigidas principalmente (e, idealmente, exclusivamente) àquele candidato a santo.
- Decisão Final: Se ambas as fases forem positivas, o caso é apresentado ao Papa, que tem a palavra final para reconhecer o evento como um milagre autêntico.
Perguntas Frequentes sobre o Processo de Canonização
Quanto tempo demora para alguém ser canonizado?
Não há um tempo fixo. Alguns processos são rápidos, como o de São João Paulo II (9 anos). Outros podem levar séculos. Santa Joana d’Arc, por exemplo, foi martirizada em 1431 e canonizada apenas em 1920. A duração depende da complexidade da causa, da coleta de documentos e da ocorrência dos milagres.
Qual a diferença clara entre Santo, Beato, Venerável e Servo de Deus?
É uma escada de reconhecimento:
Servo de Deus: A causa foi oficialmente aberta.
Venerável: A Igreja reconheceu que ele viveu as virtudes de forma heroica.
Beato: Foi comprovado um milagre (ou martírio). O culto público é permitido localmente.
Santo: Foi comprovado um segundo milagre. O culto é estendido à Igreja Universal.
Um leigo casado pode se tornar santo?
Sim! A santidade é para todos. Um exemplo maravilhoso é o casal São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. Eles foram o primeiro casal a ser canonizado na mesma cerimônia na história da Igreja.
O que é uma canonização equipolente?
É um procedimento especial e raro onde o Papa, reconhecendo um culto antigo, espontâneo e ininterrupto a uma pessoa, estende esse culto à Igreja universal sem passar por todo o processo formal e sem a necessidade da comprovação de um milagre recente. Foi o caso, por exemplo, de São José de Anchieta, canonizado pelo Papa Francisco em 2014.
Conclusão: uma jornada de Fé, Rigor e Inspiração
O caminho até a declaração de santidade é longo, meticuloso e profundamente sério. Longe de ser uma simples “premiação”, o processo de canonização é um presente para toda a Igreja. Ele nos garante que os modelos de fé que veneramos foram examinados com o máximo rigor, unindo a razão da ciência e a luz da teologia.
Cada Servo de Deus, Venerável, Beato e Santo nos lembra que o chamado à santidade é universal e possível. Eles são faróis que iluminam nossa própria jornada de fé.
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